Uma eventual vitória do democrata Joe Biden na eleição presidencial dos EUA pode mudar a relação dos americanos com o Brasil. Quando era vice de Barack Obama, Biden foi crucial na construção de um diálogo entre os dois países, mas o apoio de Jair Bolsonaro a Donald Trump e a pressão internacional contra a política ambiental brasileira tendem a afastar a Casa Branca de Biden do Palácio do Planalto. A admiração de Bolsonaro por Trump sempre foi explícita. O brasileiro quebrou o padrão da diplomacia brasileira ao declarar, nos jardins da Casa Branca, que torce pela reeleição do republicano – o que é visto com preocupação nos EUA.

“A eventual presidência de Biden tem potencial de impulsionar as relações com o Brasil”, afirma Thomas Shannon, embaixador americano no Brasil em parte do governo Obama. “Mas Bolsonaro abraçou Trump e se comprometeu com ele, quase em nível pessoal, o que limita a capacidade do Brasil de construir um relacionamento bipartidário em Washington.” Na quinta-feira, Bolsonaro voltou a dizer que torce pela reeleição de Trump, mas afirmou que o interesse na relação não depende do partido no poder. “Se eles (democratas) não quiserem, paciência, né? O Brasil vai ter de se virar por aqui”, disse.

Entre ex-assessores e diplomatas que trabalharam com Biden, é consenso que o democrata conhece o Brasil, sabe dos entraves na relação e tem disposição para aprofundar a parceria. Mas, para isso, Bolsonaro precisará fazer sinais. “O potencial de tensão é muito claro”, afirma Michael Camilleri, diretor do centro Rule of Law, do Diálogo Interamericano.

Segundo ele, a política externa de Biden deve se orientar por três eixos: liderar a resposta global à pandemia, avançar a agenda ambiental e aumentar a pressão sobre governos autoritários. Bolsonaro tem sido pressionado pela comunidade internacional e pela esquerda americana em todas as três frentes “Mas Biden tem estilo construtivo, conhece o Brasil e valoriza a parceria. Dependerá de como Bolsonaro agirá”, afirma Camilleri, ex-assessor de América Latina de Obama no Departamento de Estado e no Conselho de Segurança Nacional, onde trabalhou com Biden.

Quando Dilma Rousseff desmarcou a viagem que faria a Washington, em 2013, em meio a denúncias de que fora espionada pela Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA), a Casa Branca escalou Biden para resolver o problema. Em 2014, o democrata foi à Arena das Dunas, em Natal, para assistir a estreia da seleção americana na Copa, e depois esteve em Brasília, no primeiro dia de 2015, para a posse de Dilma no segundo mandato. Segundo interlocutores dos dois governos, Biden telefonava mensalmente para Dilma e era o único vice-presidente com quem ela aceitava conversar. O democrata esteve envolvido na disputa pela venda de caças supersônicos ao Brasil. “Quais são os problemas?”, perguntava Biden nas reuniões com o governo brasileiro, querendo saber dos empecilhos para a Boeing na disputa.

O americano anotava em um caderno as questões levantadas pelos brasileiros e telefonava depois com parte dos problemas resolvidos. No fim, os EUA ficaram frustrados com o desfecho da disputa, quando o Brasil comprou os caças da sueca Gripen. Mesmo assim, a boa relação rendeu resultados em 2015, quando Dilma afirmou, em Washington, que o sucesso da visita deveria ser creditado a Biden, “por sua determinação e disposição de dialogar”. A petista chegou a chamar o americano de “amigo” e a defini-lo como um “homem charmoso”.

As pesquisas nos EUA mostram Biden com mais de dez pontos porcentuais à frente de Trump. Com isso, até o conservador John Bolton, que foi conselheiro de Segurança Nacional de Trump, afirmou que Bolsonaro precisa abrir “linhas de comunicação” com os democratas, em entrevista ao Estadão. Shannon, porém, teme que o Brasil possa chegar atrasado. “O mundo estará ocupado em janeiro. O tempo do presidente eleito estará voltado para a resposta à pandemia, para a economia, para a relação com China e Rússia, para salvar o acordo nuclear com o Irã e para os europeus”, diz.

*Com Estadão Conteúdo