Corinthians e Palmeiras já fizeram duelos históricos na Libertadores, decidiram o Campeonato Paulista em várias oportunidades e colecionam grandes jogos dentro do futebol nacional. O Dérbi marcado para esta quarta-feira, 22, entretanto, será inusitado. As duas equipes se enfrentarão em Itaquera após mais de quatro meses sem fazer uma partida oficial, em razão da paralisação provocada pela pandemia da Covid-19. À Jovem Pan, os preparadores físicos do Alvinegro e do Verdão especificaram o trabalho feito com os atletas neste período – mas não garantiram que eles retornarão 100% para a disputa do Paulistão. As comissões das duas equipes alertaram para o cuidado com as lesões nesta retomada do futebol no Brasil.

Preparador físico do time do Parque São Jorge, Michel Huff afirmou que os treinamentos à distância foram marcados por indecisão quanto ao retorno do estadual, prejudicando o seu trabalho e de toda a comissão. “Não sabemos se esse tempo vai sustentar o que necessitamos, de demandas para o jogo, ou se vai faltar alguma coisa. É tudo novo, e estamos trabalhando meio que às cegas, principalmente no início, quando planejamos vários cenários sem saber quando ia ser o primeiro jogo. É difícil saber o quanto que estamos prontos”, comentou.

Cooordenador de preparação física do Palmeiras, Antônio Mello também não vê seu elenco completamente pronto para o jogo válido pela 11ª rodada do Estadual. No entendimento do companheiro de Vanderlei Luxemburgo, os atletas do Alviverde estão com a parte física em dia, mas ainda precisam ganhar mais ritmo para retornar ao mais alto nível. “Atingir 100% é muito difícil. Você consegue elaborar a parte física, mas o mais difícil é elaborar o plano tático e técnico. Foram mais de três meses longe da bola. Esse é o plano mais importante neste momento. O físico nós conseguimos, mas agora o foco é na bola. E a bola precisa de time. Tem a coordenação, o equilíbrio, a força, a velocidade”, disse Mello.

Por outro lado, Mello destaca a forma como os palmeirenses retornaram ao Centro de Treinamento, na Barra Funda, no dia 1º de julho. Ele cita, inclusive, alguns nomes que se sobressaíram nas atividades. “A composição corporal, que é feita semanalmente, mostra que nenhum jogador está acima do peso, percentual de gordura baixinho, ganho de massa magra. Agora, tem jogadores que são puro sangue, por exemplo, Gabriel Menino vem se destacando. Bruno Henrique muito bem. Luiz Adriano, Ramires, Felipe Melo são alguns jogadores cavalinhos para treinar. Raphael Veiga, Zé Rafael. Willian também muito bem na força muscular”, comentou.

Em situações opostas no campeonato, Corinthians e Palmeiras farão um duelo decisivo. Para manter vivas as chances de se classificar às quartas de final, a equipe treinada por Tiago Nunes precisa bater o maior rival e torcer contra o Guarani, que encara o Botafogo-SP, nesta quinta. Já o Verdão pode garantir uma vaga no mata-mata do Paulista em caso de triunfo na arena do principal rival.

Os infectados pela Covid-19 

Considerando todos os times da elite do Paulistão e também da Série A do Campeonato Brasileiro, o Corinthians foi o clube que mais registrou casos da Covid-19 em seu plantel. Ao todo, 23 dos 33 atletas do elenco foram infectados pelo novo coronavírus. Víctor Cantillo, inclusive, será baixa na partida desta quarta-feira devido ao contato recente com o vírus. Ele está cumprindo o período de 15 dias de isolamento social. De acordo com o preparador físico do Alvinegro, nenhum jogador que foi contaminado apresentou qualquer tipo de sequela ou dificuldade para praticar atividades durante as sessões de treinamento. “Os jogadores que tiveram sintomas e foram positivados fizeram avaliações médicas, clínicas, testes respiratórios e pulmonares. Nenhum deles apresentou qualquer problema. Então estamos bem respaldados em relação a sequelas, que pudessem interferir no treinamento”, disse Michel Huff.

No Palmeiras, Antônio Mello afirma que a situação também foi bem controlada e que nenhum jogador manifestou dificuldades para respirar ou problemas cardiológicos. No clube, Vanderlei Luxemburgo também testou positivo para a doença, mas já está recuperado e apto para ocupar o banco de reservas na Arena Corinthians.

O risco de lesões

As comissões de Corinthians e Palmeiras também alertaram para o cuidado com as lesões nesta retomada do futebol no Brasil. A preocupação existe após o longo período de inatividade e também depois de alguns exemplos negativos, como o Campeonato Alemão, em que vários atletas se machucaram no reinício. Mello, coordenador físico do Palmeiras, detalhou quais são as precauções para manter o departamento médico vazio. “Temos cuidado com trabalho de velocidade e abertura de passadas porque são treinamentos físicos que predispõem as lesões. Então, fazemos trabalhos mais curtos. As velocidades mais altas deixo que aconteça dentro das competições. Fortalecemos com muita frequência. De duas a três vezes por semana, fazemos fortalecimento muscular de grupos grandes. Fazemos o core três vezes por semana, preventivamente. Ativamos todas as funções motoras dos atletas antes de eles entrarem em campo, em grupos separados e com espaços mais abertos”, especificou.

O preparador físico também comentou que utiliza da caixa de areia para evitar lesões – o método é considerado ultrapassado e contestado por alguns especialistas. “Eu sou adepto e utilizo muito a caixa de arreia já no início do trabalho de força. Evidentemente que a força no futebol é a força rápida. Para ganhá-la, eu preciso de chuteira e campo. Areia é um meio que eu uso para engrandecer essa qualidade física. Então tudo é feito com cuidado, ciência e acompanhamento, apesar de muitas pessoas contestarem”, disse Mello, profissional que está há 45 anos no mercado.

Do outro lado, o Corinthians também se preparou para este momento com cautela e trabalhando na base da progressividade, de acordo com Michel Huff. “É controle de carga, progressividade na carga, e fazer com que os jogadores saiam desse período de quarentena, em que tinham demandas que não atingiam o que o jogo exige. O jogador que treina em um apartamento, na esteira ou na bicicleta, não consegue atingir as demandas de velocidade que são exigidas em um jogo de futebol e no treinamento. Para isso, criamos toda uma progressividade para que os jogadores atingissem as demandas no treinamento, respeitando as individualidades de cada um, dando tempo para que eles se recuperassem de uma sessão de treino para outra”, disse o preparador.

Rodízio de atletas

A partir desta quarta-feira, os times do Paulistão viverão uma verdadeira maratona de partidas. Logo após o final do Campeonato Paulista, marcado para o dia 8 de agosto, as equipes começarão a disputar o Brasileirão. Por isso, os profissionais de Corinthians e Palmeiras se manifestaram a favor do rodízio de atletas durante os confrontos desde que o nível das apresentações seja mantido. “Os clubes que estão em todas as competições em nível estadual, nacional e internacional vão ter dificuldade para manter uma mesma escalação em vários jogos. A sequência de jogos vai ser grande de quarta e domingo, dois jogos na semana. O grande desafio é esse, poder fazer o rodízio, a rotatividade dos jogadores, mas sem perder a qualidade, e também poder ter resultado. Não adianta fazer o rodízio se não tiver qualidade, se não ganhar os jogos. Quem tem condição de fazer o rodízio vai poder usar desse mecanismo”, comentou o Huff, do Corinthians.

Já Mello revelou que conversou com Vanderlei Luxemburgo, técnico do Palmeiras, e que entraram em um acordo para revezar alguns atletas durante a sequência de jogos. “Já tive essa conversa com o Vanderlei. Ele é inteligente e precavido. Os cuidados preventivos precisam ser tomados, trabalhamos com seres humanos. Alguns recuperam mais rápido e outros, lentamente. Tem o regenerativo entre os jogos, que vai acontecer. Também temos o departamento de fisiologia que vai me informar a tempo e hora do desempenho físico dos atletas nos treinos e nos jogos. E vou acompanhar com todo aparelhamento científico, mas também com o meu olho, com a minha sensibilidade, da minha percepção. E revezar, não digo fazer rodízio de um time inteiro, mas um, dois ou três jogadores que precisam de uma recuperação mais pronta, isso vai acontecer”, encerrou.