O Tribunal de Hamburgo, na Alemanha, condenou nesta quinta-feira (23) a dois anos de prisão, sob liberdade condicional, o guarda de um campo de extermínio nazista chamado Bruno Dey. Ele foi condenado por cumplicidade em 5.232 mortes ocorridas no campo enquanto servia lá, aos 17 anos de idade. A sentença encerra o que poderia ser o último julgamento a ser realizado por crimes de nazismo, 75 anos após a queda do Terceiro Reich, dadas as dificuldades envolvidas nesses processos devido à idade avançada do acusado e das testemunhas diretas das acusações contra eles. A defesa pediu a absolvição gratuita, enquanto a promotoria solicitou três anos – de acordo com o código previsto para menores de idade e considerando a idade em que foi processado -, considerando-o uma “peça do aparato assassino” do Terceiro Reich.

As acusações contra ele correspondiam ao tempo em que serviu em Stutthof, um campo de extermínio perto de Gdansk, na Polônia ocupada. Isso foi entre agosto de 1944 e abril de 1945, período em que se estima que pelo menos 5.232 reclusos morreram. Os historiadores estimam que no total 100 mil prisioneiros, a maioria judeus, foram mortos lá. Esse foi um dos chamados processos tardios por crimes do nazismo, de desenvolvimento complexo, dada a idade avançada dos acusados e dos sobreviventes. Na última audiência antes da sentença, na última segunda-feira, o acusado pediu perdão “a todas as pessoas que passaram por esse inferno”, bem como a seus parentes e descendentes. Ele também garantiu que não serviu lá voluntariamente, mas que foi recrutado pelas SS e colocado naquele local. Durante o julgamento, o réu admitiu que tinha conhecimento do plano do Terceiro Reich de exterminar os judeus. No entanto, ele alegou que tinha apenas 17 anos de idade quando entrou em campo e não tinha capacidade para executar tal serviço.

Dey teve uma vida normal durante décadas na Alemanha e a Justiça não o processou por não considerá-lo diretamente por crimes de guerra. Em abril do ano passado, foi formalmente acusado com base na sentença contra o antigo guarda ucraniano John Demjanjuk, condenado em 2011 a cinco anos de prisão por cumplicidade nas mortes de Sobibor, em território da Polônia ocupada. Demjanjuk, que depois da Segunda Guerra Mundial viveu nos Estados Unidos por décadas até ser extraditado para a Alemanha, participou de seu julgamento em uma maca, nunca chegou a se pronunciar sobre as acusações contra ele e morreu alguns meses após ouvir sua sentença, em um lar de idosos. Seu julgamento estabeleceu uma jurisprudência. Outros processos seguiram em condições semelhantes, dificultadas por interrupções devido ao estado do acusado e entre as dificuldades decorrentes de ter sobreviventes com capacidade de reconhecer o envolvimento direto do acusado. Apesar dessas complexidades, a Justiça alemã adere ao princípio de que o assassinato não expira, independentemente do acusado ser capaz de cumprir sua eventual sentença.

*Com EFE