Passamos o último final de semana entre rumores da saída do ministro da economia, Paulo Guedes. Aparentemente, este barulho tem sido negado por pessoas próximas aos envolvidos, e pelo próprio presidente Jair Bolsonaro. Uma eventual saída de Guedes, sem dúvidas, causaria mal estar nos mercados financeiros, pois não se esqueçam que ele é um dos últimos (e talvez o mais importante) super-ministros do governo Bolsonaro. Para os mercados, Paulo Guedes é igual a agenda liberal, que prega, entre outros, um Estado mais enxuto e eficiente, que tem como pilar privatizações e olhos atentos às contas fiscais. Assim, a ausência dele como quadro técnico balançaria essa crença no governo. Menos em relação a persona Paulo Guedes, e mais em relação as contas fiscais, divido das preocupações do mercado.

Vejam, o Brasil viveu anos de expansão fiscal em troca de popularidade e, talvez, em uma agenda que até certo ponto se acreditava que a distribuição sem contrapartida de investimentos geraria crescimento. Mas não, a cartilha macroeconômica falou mais alto, e tivemos juros altos e baixo crescimento. Foi justamente a definição de um teto de gastos que permitiu controle de expectativas, queda nas taxas de inflação e uma trajetória de queda de taxa de juros para patamares antes inimagináveis. E, mesmo assim, o rombo nas contas fiscais (sobretudo nas perspectivas) foi grande, onde a reforma da previdência foi um grande passo de ajuste.

Então, para que abandonar essa receita agora? Claro, 2020 trata-se de um grande parênteses na humanidade, e foram necessário gastos indiscriminados para minimizar os impactos da pandemia na economia, mas, passado o pior, por favor, olhos atentos às contas fiscais novamente. Até imagino a coceira que deve se dar ao ver a popularidade aumentando ao distribuir “alguns muitos trocados”, mas certamente um legado de ajuste de contas fiscais com uma pandemia no meio seria historicamente mais heroico, tenho certeza.

Dito isso, recente “manifesto” assinado por diversos economistas faz todo sentido nesse momento: uma discussão antiga, mas que voltou à tona e merece todos ouvidos. O teto/piso de gastos pode sim ser revisto, mas para confirmar austeridade fiscal e não o contrário, mesmo porque partiremos 2021 com cerca de 95% de dívida pública em relação ao PIB, e com perspectiva de crescimento econômico baixo, pouca arrecadação fiscal. O cenário não está fácil, está cedo para baixar guarda.

*Fernanda Consorte é economista-chefe do banco Ourinvest e colunista da Jovem Pan.