A inteligência artificial já participa da criação de cenas, áudios e campanhas; entenda o que muda para quem produz e consome comunicação digital.
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta para responder perguntas ou produzir textos e passou a ocupar uma etapa cada vez maior da comunicação audiovisual. Nos últimos dias, exemplos apresentados por profissionais do mercado publicitário mostraram que cenas, áudios, movimentos de câmera e diferentes versões de uma mesma campanha podem ser produzidos ou modificados com apoio de IA. Em entrevista ao podcast Deu Tilt, Rafael Nasser, CEO da WPP Production Brasil, afirmou que grandes marcas já utilizam essa combinação entre tecnologia e trabalho humano em produções que chegam ao celular e à televisão.
A mudança levanta uma dúvida importante para quem trabalha com comunicação: se a IA consegue produzir tanto conteúdo, o que passa a diferenciar uma comunicação realmente boa? A resposta não está apenas na ferramenta escolhida. Em um ambiente no qual imagens, vozes, textos e vídeos podem ser criados rapidamente, clareza, contexto, criatividade, senso crítico e capacidade de compreender pessoas ganham ainda mais importância.
A inteligência artificial está mudando a maneira de produzir mensagens
A principal transformação provocada pela IA na comunicação é a velocidade. Segundo Nasser, ferramentas generativas podem reduzir significativamente o tempo necessário para determinadas etapas de uma produção publicitária, com estimativas apresentadas por ele de até 80% de ganho de velocidade e redução de custos de até 50% em determinados processos. A tecnologia também permite testar ideias antes caras ou demoradas, modificar cenas e criar diferentes possibilidades de uma campanha com muito mais agilidade.
Isso altera também a própria conversa entre quem cria uma mensagem e quem a recebe. Antes, uma campanha audiovisual dependia de muitas decisões antecipadas, porque cada gravação ou alteração podia exigir novas equipes, equipamentos e deslocamentos. Com ferramentas generativas, parte desse processo pode acontecer de maneira mais flexível, permitindo experimentar diferentes linguagens, formatos e abordagens. Para profissionais de comunicação, isso significa que saber explicar uma ideia com precisão passa a ser ainda mais importante: quanto melhor o briefing, o roteiro e a intenção da mensagem, maior a possibilidade de a tecnologia ajudar sem substituir o pensamento estratégico.
A mudança já aparece em campanhas de grandes empresas. De acordo com a reportagem do UOL, produções ligadas a marcas como Oracle, LG e Motorola utilizam IA para criar elementos visuais, áudio e movimentos de câmera, em alguns casos sem que o público consiga identificar imediatamente o que foi produzido artificialmente. Isso cria uma nova relação entre tecnologia e linguagem: o espectador não está necessariamente diante de uma comunicação que “parece feita por IA”, mas de uma produção híbrida na qual recursos digitais e trabalho humano se misturam.
Para quem quer falar bem, apresentar ideias ou produzir conteúdo para redes sociais, a lição é relevante. A tecnologia pode ajudar a executar uma mensagem, mas não decide sozinha qual é o melhor argumento, qual tom combina com determinado público ou qual palavra pode gerar confiança. Essas escolhas continuam dependendo de interpretação, repertório e conhecimento sobre comportamento humano. Quanto mais fácil fica produzir conteúdo, maior tende a ser o valor de quem consegue dar sentido a esse conteúdo.
Por que comunicar bem continua sendo importante na era da IA
A expansão da inteligência artificial pode dar a impressão de que basta escrever um bom comando para obter uma comunicação pronta. Na prática, os próprios relatos recentes do mercado mostram que essa visão é limitada. Nasser chamou atenção para o risco de tratar a IA como algo semelhante a apertar um botão, enquanto empresas mais estruturadas criam processos internos para controlar custos, segurança, dados e qualidade. Em um dos exemplos apresentados na entrevista, testes com IA chegaram a consumir US$ 5 mil em apenas uma hora, mostrando que rapidez não significa necessariamente simplicidade.
Esse ponto é especialmente importante para profissionais que trabalham com comunicação digital. Uma ferramenta pode gerar dezenas de versões de uma mensagem, mas alguém precisa decidir qual delas representa melhor a identidade de uma marca, respeita o público e transmite a informação de maneira responsável. A capacidade de revisar, questionar e adaptar uma resposta produzida por IA se torna, portanto, uma habilidade de comunicação tão importante quanto escrever ou falar bem.
O cenário também aumenta a importância da confiança. Quanto mais conteúdo artificial estiver disponível, mais difícil pode ser para o público distinguir rapidamente o que foi produzido por pessoas, o que foi criado por sistemas generativos e o que combina os dois. Uma análise publicada pelo UOL em 19 de agosto destacou justamente a confiança como um ativo central em uma comunicação marcada pela abundância de conteúdo produzido com IA.
Isso significa que empresas, criadores e profissionais precisam pensar não apenas em chamar atenção, mas em construir credibilidade. Informações claras, transparência sobre processos, consistência de linguagem e responsabilidade na utilização de imagens e vozes podem se tornar diferenciais importantes. Em outras palavras, a IA pode aumentar a quantidade de mensagens disponíveis, mas não garante que essas mensagens sejam compreendidas, lembradas ou consideradas confiáveis.
Como adaptar a comunicação profissional ao avanço da IA
Para quem trabalha ou pretende trabalhar com comunicação, a mudança não significa abandonar as habilidades tradicionais. Pelo contrário: escrever com clareza, organizar argumentos, falar de maneira compreensível, interpretar o público e saber contar histórias continuam sendo competências fundamentais. A diferença é que essas habilidades passam a trabalhar junto de ferramentas capazes de acelerar tarefas operacionais e ampliar possibilidades criativas.
Um profissional pode, por exemplo, utilizar IA para gerar alternativas de títulos, estruturar ideias, transformar um roteiro em diferentes formatos ou explorar possibilidades visuais. Mas a decisão final precisa considerar objetivo, contexto, público e identidade. O mesmo princípio vale para apresentações profissionais: uma ferramenta pode ajudar a organizar tópicos, mas não substitui a capacidade de explicar uma ideia diante de outras pessoas, responder perguntas ou adaptar a linguagem conforme a reação da audiência.
Outro ponto importante é o pensamento crítico. Em entrevista recente, Nasser afirmou que a automação aumenta a necessidade de profissionais capazes de fazer curadoria e estratégia, justamente porque os sistemas são generalistas e não possuem a mesma compreensão humana do contexto. Para quem está entrando no mercado, isso indica uma mudança no perfil das habilidades valorizadas: aprender a utilizar ferramentas de IA é importante, mas saber avaliar seus resultados pode ser ainda mais decisivo.
A comunicação do futuro, portanto, tende a ser menos sobre escolher entre “humano” ou “máquina” e mais sobre entender como os dois podem trabalhar juntos. Quem souber usar tecnologia sem perder clareza, personalidade e responsabilidade terá melhores condições de produzir mensagens que não sejam apenas rápidas, mas também relevantes. Em um cenário de excesso de conteúdo, talvez o maior diferencial continue sendo algo essencialmente humano: saber o que dizer, para quem dizer e por que aquela mensagem merece ser ouvida.
A inteligência artificial já está alterando a maneira como vídeos, campanhas e conteúdos digitais são planejados e produzidos. Os acontecimentos desta semana mostram que a transformação não está restrita aos laboratórios de tecnologia: ela já alcança publicidade, audiovisual, redes sociais e comunicação profissional.
Para quem deseja se comunicar melhor, a principal mudança é entender que velocidade não substitui qualidade. A IA pode ajudar a produzir mais, testar ideias e economizar etapas, mas comunicação continua dependendo de intenção, contexto, empatia e capacidade de construir confiança. Em vez de competir com a tecnologia, profissionais de comunicação precisam aprender a orientá-la, revisar seus resultados e preservar aquilo que nenhuma ferramenta entrega automaticamente: uma mensagem que realmente faça sentido para outra pessoa.
Fontes:
- UOL Tilt — “Com IA, sai 80% mais rápido e 50% mais barato”, com entrevista de Rafael Nasser, CEO da WPP Production Brasil
- UOL Tilt — “Motorola e Oracle: CEO da maior produtora do mundo revela IA em filmes”
- UOL Tilt — “‘Parem as máquinas’: CEO conta como torrou US$ 5 mil em 1h com IA”
- UOL Economia — “Por que confiança é o ativo mais valioso na era da IA”
- UOL Confere — “Vídeos em que Ulysses Guimarães critica Bolsonaro foram manipulados com IA”
- UOL Tilt — “‘Maravilhoso’, diz CEO sobre filme com IA de festa junina de cidadezinha”