O Governo Digital disponibilizou um Guia de Design de Transparência para orientar órgãos públicos a comunicar, de forma clara e acessível, quando e como a inteligência artificial participa de serviços digitais. A proposta é fazer com que cidadãos e servidores saibam identificar a presença da tecnologia em diferentes etapas de uma interação com o Estado.
O documento considera situações em que a inteligência artificial aparece em portais de serviços, aplicativos, chatbots, sistemas de mensagens, notificações automáticas, painéis e relatórios. Segundo o Governo Digital, a transparência deve fazer parte da experiência de uso, evitando que uma pessoa receba uma resposta, conteúdo ou encaminhamento automatizado sem saber como a tecnologia foi empregada.
Transparência também é uma questão de comunicação
O guia desloca parte da discussão sobre inteligência artificial do campo estritamente técnico para a comunicação pública. Informar que um sistema utiliza IA é apenas o primeiro passo. A instituição também precisa apresentar essa informação em linguagem compreensível, no momento adequado e em um formato acessível para diferentes públicos.
Essa preocupação é relevante porque serviços digitais podem envolver públicos com níveis distintos de familiaridade tecnológica. Uma explicação excessivamente técnica pode não ajudar o usuário a entender se está conversando com um assistente virtual, consumindo um conteúdo gerado automaticamente ou recebendo uma informação que passou pelo apoio de um sistema de IA.
Na prática, a comunicação precisa responder a perguntas centrais: onde a inteligência artificial está presente, qual é sua função no serviço e que tipo de consequência pode existir para o usuário. A clareza dessas respostas contribui para que a pessoa avalie melhor a informação recebida e compreenda os limites da automação.
Orientações alcançam textos, imagens, áudios e decisões
Entre os cenários abordados estão as interações diretas com assistentes virtuais e o consumo de textos, imagens e áudios produzidos com apoio de inteligência artificial. O guia também considera a necessidade de identificar conteúdos falsificados ou manipulados, como deepfakes, e de comunicar informações de interesse público elaboradas ou apoiadas por sistemas automatizados.
Essa variedade mostra que a transparência não se resume a colocar um aviso único em uma página institucional. Ela precisa acompanhar os diferentes pontos de contato entre o cidadão e o serviço público. Um chatbot, por exemplo, exige uma forma de identificação diferente daquela usada em um relatório ou em uma notificação automática enviada ao celular.
Para profissionais de comunicação, gestores e lideranças, o tema envolve uma mudança de perspectiva: a presença da IA deve ser explicada como parte do relacionamento com o público. A informação precisa estar integrada ao conteúdo e ao desenho do serviço, sem esconder a participação da tecnologia nem criar uma falsa impressão de interação exclusivamente humana.
GuIA organiza o ciclo de projetos no setor público
O Guia de Design de Transparência está inserido em um contexto mais amplo de orientação para o uso de inteligência artificial na administração pública. O Guia Unificado de Inteligência Artificial para o Setor Público, conhecido como GuIA, organiza etapas que vão do planejamento e da experimentação à implementação, ao monitoramento e à eventual desativação de projetos.
De acordo com a divulgação do Ministério da Gestão e da Inovação, o documento reúne recomendações relacionadas à Lei Geral de Proteção de Dados, à supervisão humana, à documentação das soluções e à avaliação de riscos. Esses elementos ajudam a conectar a comunicação com outras responsabilidades envolvidas na adoção de sistemas automatizados.
A supervisão humana, nesse cenário, não é apenas uma etapa operacional. Ela também se relaciona à capacidade de explicar como o sistema foi utilizado e de oferecer respostas compreensíveis quando o cidadão precisa entender um procedimento. Documentar o funcionamento e avaliar riscos são medidas que podem sustentar uma comunicação mais responsável sobre os serviços.
Por que a clareza influencia a confiança
Quando uma instituição informa de maneira direta como utiliza a inteligência artificial, o usuário consegue formar uma expectativa mais realista sobre o serviço. Ele pode distinguir uma resposta automatizada de uma análise humana, reconhecer a finalidade da ferramenta e compreender que a tecnologia faz parte de um processo institucional específico.
Essa clareza é especialmente importante em ambientes públicos, nos quais a comunicação precisa combinar acessibilidade, prestação de contas e respeito aos direitos das pessoas. O uso de termos simples não elimina a necessidade de precisão; ao contrário, exige que a instituição traduza o funcionamento do serviço sem omitir informações relevantes.
O guia do Governo Digital, portanto, trata a transparência como uma característica do próprio serviço, e não como uma explicação acrescentada apenas depois da implementação. Para o cidadão, isso significa ter mais elementos para compreender sua interação com portais, aplicativos e assistentes virtuais. Para os órgãos públicos, significa assumir que comunicar bem a presença da IA é parte da responsabilidade de utilizá-la.